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COMO FAZER POETRIX, por Sara Fazib
COMO FAZER POETRIX
uma carta aberta de Sara Fazib para Andréa Abdala


Andréa, você me pediu para lhe ensinar a fazer poetrix; quem sou eu, moça?! Estou tentando aprender, também! Mas vamos lá.

Bem, o Gabriel já enviou uma contribuição e tanto e vou mandar, em outra mensagem, mais coisas, elaboradas pelo próprio Goulart.

Vou, então, passar a minha experiência, baseada nos meus poetrix que "deram certo" (sim, porque muitos deles deixam a desejar!). Naqueles que considero que atingiram o meu propósito: atingir em cheio o meu leitor - porque penso no poetrix perfeito como um pequeno projétil que nos atinge direto num órgão vital; um detonador de emoções; algo que nos dispara o coração, o tesão; que atinge como um raio a nossa cabeça: "poxa, não é que é isso mesmo?!"; que nos suspende a respiração,nos incha o fígado de tanta raiva,
indignação, ou que, simplesmente, mata-nos de rir; algo que nos cega, por um instante, de tanta beleza.

A idéia é fazer algo conciso mas muito evocativo, que alavanque impressões, sensações, que sirva de referência, para quem o lê, para um mundo de interpretações. Há uma co-autoria entre o autor e seu leitor. Aquele enuncia e este completa ou faz sua releitura. O não-dito é o "pulo do
gato".


Para isso são valiosas as metáforas, figuras de linguagem e imagens. Gosto também de usar neologismos, fazer jogos de palavras, que são outros meios eficientes de mandar um recado de modo sucinto; porque a "nova palavra" e o jogo já são, em si, um meio expressivo conciso e forte, de
impacto.

Procuro, também, suprimir tudo que não se faz necessário para sua (do poetrix) proposta alcançar o fim desejado. Transmitir, de preferência, a idéia em sua essência.


Costumo, feito o poetrix, fazer algumas leituras, eliminando, em cada uma delas, artigos, preposições, conjunções etc, deixando-o o mais enxuto possível. Sempre que possível, substituir muitas palavras por uma só
expressão. Se não dá para sintetizar muito, tudo bem (às vezes precisamos das palavras, mesmo), desde que não se alongue demais para não descaracterizá-lo como um poetrix - que tem como parâmetro um limite de 30 sílabas.


Ah! E embora não seja obrigatório, o título é algo que não deve ser subestimado ou desprezado. Tem um papel que vai além de um anúncio ou um resumo da idéia: ele pode ser complementar, significativo e até revelador.

Outra coisa: o inesperado, a surpresa, caem muito bem no poetrix. Abordar o comum de modo singular. Falar do que já disseram de um jeito novo, como se fosse uma tremenda 'sacada', entende?

A ironia, a crítica, a denúncia, o humor, se prestam bem demais a esse tipo de poesia. Mas o lirismo também tem o seu lugar, sempre se tendo em mente a singularidade e concisão.

Olho o poetrix, Andréa, com respeito e seriedade; como um outro meio de expressão poética da minha visão de vida e do mundo. E tenho procurado me esmerar nessa linguagem. Tento não cair no laço de dispor palavras, dum jeito fácil ou displicente, ou "quebrar" uma frase em em três linhas e
considerar isso poetrix. Eu me esforço para me livrar do perigo da mesmice de temas ou enfoques. Para tanto, tenho me aplicado em desenvolver um olhar e uma escuta sensíveis. Tenho também - ouvindo o escritor e ensaísta Paulo Avelino - procurado ler, ler muito. Aprender com os bons, analisar o seu jeito de fazer, descobrir e aprender com eles os seus macetes; procuro me abastecer de subsídios para desenvolver, eu mesma, o meu jeito singular de fazer essa arte minimalista.

Mais: tenho procurado não só escrever mas fazer uma reflexão sobre o meu trabalho. Recebi um conselho de um poeta, o Clodomir Monteiro, que procuro seguir e, sempre que posso, passo para frente: É preciso que tenhamos claros os nossos conceitos, que pensemos sobre como fazemos a nossa poesia ou prosa; que tentemos explicitar a teoria da nossa práxis/texto - resultado de uma anterior e fundamento para a próxima; que dominemos a nossa técnica. "A teoria não nos tolhe, antes nos liberta de ser
repetitivos, formais". Tenho procurado colocar isso em prática em relação ao poetrix.

Apesar do esforço, nem sempre alcanço os resultados esperados. Fico aquém das minhas expectativas a maioria do tempo. Mas isso não me desanima e intimida, não. Vaidades à parte, eu me coloco na condição de aprendiz e tento, tento, tento, num exercício constante. Sem o menor medo de me expor.

E considero as Listas um excelente espaço para isso. Afinal, que lugar melhor para um aprendizado que um ambiente de amizade, tolerância e propósitos afins? As listas, vez ou outra, têm me dado, inclusive, parâmetros para "sentir" se a tal co-autoria com o leitor - que tanto
almejo - é alcançada.

O poetrix parece coisa fácil. Três versinhos. Mas vejo assim, não. Antes eu o considero um desafio de síntese, sensibilidade e criatividade. E concordo com o poeta Antonio Augusto de Assis, quando diz que "que o micropoema será a poesia do novo milênio: diz o máximo no mínimo de tempo e espaço".

É isso aí, Andréa. Vamos embarcar nas asas da liberdade que o poetrix nos confere e criar, criar, criar.

beijos
sara

Poetrix
Enviado por Poetrix em 24/11/2006


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